segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Meu querido diário

Acabo de ver o jogo Porto-Benfica. O local escolhido foi a esplanada do Armindo, o despachante. O único local da Vila com ecrã gigante. Fomos para lá, eu e umas colegas, meia hora antes do jogo começar, para conseguirmos uma boa mesa. Aliás, fomos os primeiros a chegar. Mas com o aproximar da hora do jogo as pessoas foram chegando. Chegando... Até não caber mais ninguém. Pelas minhas contas deveriam estar dentro do estabelecimento umas 120 pessoas. Como existem pouco mais do que 30 cadeiras, imagine como estava o local. Não havia, nem sequer no chão, um espaço em aberto. Mais apertado do que no estádio, acho. Além disso, fora do estabelecimento, e aproveitando uns espaços abertos nas paredes, estavam aí umas 30 crianças. A maioria dos espectadores eram homens, apesar de haver 4 ou 5 mulheres. Havia mais camisolas e cachecóis do Porto do que do Benfica. Curioso é que as camisolas do Porto eram todas recentes, enquanto as do Benfica eram quase todas do século passado. Enfim, efeitos dos tempos... Por problemas na parabólica ninguém viu os primeiros 10 minutos de jogo. MAs quando a imagem veio o barulho tormou-se ensurdecedor. Os lances mais perigosos foram os mais comentados e aplaudidos. Mas os lances polémicos, de faltas ou supostas faltas, são os que levantam mais discussões. Em gritos. Mas tudo dentro da paz, claro. Chegado o intervalo aproveitei para beber mais um mazza (néctar de manga) e comer uns espetos (espetadas de porco). Interessante que das cento e muitas pessoas que estiveram a assistir ao jogo só umas 10 consumiram alguma coisa. Ilucidativo da realidade local... Segunda parte e finalmente os golos. O golo do Porto foi o mais festejado e deu para perceber que havia mais portistas presentes do que benfiquistas. Acho que era porque estavam mais confiantes. Quando o jogo terminou todos ficaram contentes e bateram palmas. Ainda se ouviram uns gritos pelo Sporting, o que por aqui é coisa rara. Claro que depois, como sempre, todos acharam que a sua equipa merecia ter ganho. Até eu.

Maçã de Junho

És a estrela da alvorada e a madrugada junto ao cais
És tudo o que eu vejo em ti, és a alegria e muito mais
És a minha maçã de Junho, és o teu corpo e o meu
Amo-te mais que à vida, que a vida sem ti morreu

És a erva perfumada, debruada a girassóis
O trago do café quente nas manhãs entre lençóis
És a minha maçã de Junho e a minha noite de Verão
Anda, vem comigo, vamos, dá-me a tua mão

És o encontro na estrada, és a montanha e o pôr do sol
O vinho bebido em festa, és a papoila e o rouxinol
És a minha maçã de Junho e a minha estrela polar
Sem ti eu não tenho norte, sem ti eu não sei amar.

Jorge Palma

Outras ruas...

Vila da Ribeira Brava / Cabo Verde

domingo, fevereiro 27, 2005

Igrejas para todos os gostos

Quando visitei o Brasil fiquei espantado com o número e com a diversidade de igrejas que ali existem. Só numa rua podem existir 10, 15. Há para todos os gostos, como no supermercado. Ainda para mais, como muitos dos fundadores de "igrejas" encontram no nome a forma de as destacarem, cada igreja tem um nome mais estranho e criativo do que a outra. Ora veja alguns exemplos:

• Igreja Evangélica Florzinha de Jesus (Londrina)
• Igreja Pentecostal Alarido de Deus (Anápolis)
• Igreja Batista Coluna de Fogo (Belo Horizonte)
• Igreja comunidade Porta das Ovelhas (Belo Horizonte)
• Igreja Original de Jesus Cristo Número dois (São Paulo)
• Igreja de Deus que se Reúne nas Casas (Itaúna)
• Igreja Evangélica Explosão da Fé (Belford Roxo)
• Igreja Pentecostal Marilyn Monroe (São Paulo)
• Igreja Pentecostal do Fogo Azul (Duque de Caxias)
• Igreja Pentecostal o Poder de Deus é Fogo (Rio de Janeiro)
• Templo Musical Americano Deus é fé e formosura(Rio de Janeiro)
• Igreja Evangélica Pentecostal Labareda de Fogo (Rio de Janeiro)
• Igreja a Serpente de Moisés, a que Engoliu as Outras (Rio de Janeiro)
• Assembléia de Deus com Doutrinas e sem Costumes (Rio de Janeiro)
• Igreja Evangélica Pentecostal Cuspe de Cristo (São Paulo)
• Igreja Pentecostal a Última Embarcação Para Cristo (São Paulo)
• Igreja Pentecostal Jesus Vem Você Fica (São Paulo)

Frase do dia

Sou imortal porque não tenho onde cair morto.

sábado, fevereiro 26, 2005

O problema do lixo

Além da matemática, uma das minhas grandes lutas em Cabo Verde tem sido a consciencialização dos meus alunos para a questão do lixo. De facto, nenhum deles manifesta estar sensibilizado para tal. Exemplo disso são as salas de aula que, pelo último tempo, têm mais papéis e plásticos no chão do que todos os caixotes do lixo da escola. Aliás, para os alunos é perfeitamente natural e normal, mesmo dentro da sala de aula, mandar o lixo para o chão ou mesmo pela janela. Como se nada fosse. Poderia-se pensar que se trata apenas de uma questão de educação. Mas é bem mais que isso. É, acima de tudo, um problema cultural, enraizado em toda a sociedade, do mais novo ao mais velho. pois, ninguém se importa. Ninguém repreende ninguém. As pessoas têm outras preocupações. Outras prioridades, porventura, muito mais importantes e decisivas na sua vida. Aliás a existência de contentores e a recolha de lixo é algo muito recente em Cabo Verde. Pois, até há bem pouco tempo, cada família se desfazia do seu lixo como podia. Talvez por isso não exista essa consciência cívica, esse hábito, de colocar o lixo no lixo. Desta forma, só as novas gerações poderão modificar e alterar esta situação. Mas não é fácil alterar mentalidades e hábitos tão enraizados. Por isso batalho tanto com os meus alunos. Pois para eles, e para a sociedade, um papel no chão não tem importância nenhuma. Até porque a empregada limpa, dizem-me.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Para quê?

Para que chorar
Se o sol já vai raiar
Se o dia vai amanhecer
Para que sofrer
Se a lua vai nascer
É só o sol se pôr
Para que chorar
Se existe amor
A questão é só de dar
A questão é só de dor

Vinicius de Morais

À espera de alguma coisa... de alguém...

By seis_e_meia

Frase do dia

Um amigo é aquele que está sempre por perto quando precisa da gente.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Na falta de melhor assunto

Hoje estou naqueles dias em que nada sai. Já tentei escrever uns quantos textos, sobre outros tantos assuntos, e nada. Nem uma ideia, nem uma frase. De facto, manter um blogue não é das coisas mais fáceis do mundo. Ainda para mais quando fazemos questão de o manter actualizado, diariamente. Por vezes, custa arranjar assunto, falta inspiração, criatividade, imaginação ou simplesmente vontade. Claro que isso, no meu caso, reduz-se apenas à falta de assunto, visto quase nunca ter criatividade, imaginação, inspiração ou vontade. Desta forma, hoje, a falta de assunto acabou por virar assunto. E acredite, que bem tentei achar algo mais interessante. Mas o assunto não se procura, apenas acontece e pronto. E hoje não aconteceu. E pronto.

Claro que poderia escrever o que me vai na alma. Mas, não é minha intenção transformar este blogue num diário pessoal ou em alguma coisa intimista. Escrevo, essencialmente, sobre o que me apetece e sobre aquilo que gostaria de partilhar. E hoje é apenas isto. Prometo, porém, amanhã postar qualquer coisa. Mesmo que não tenha interesse nem jeito nenhum, aliás, como este Post.

TENDO A LUA

Hoje joguei tanta coisa fora
Vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora.
A casa fica bem melhor assim
O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Querendo ver o mais distante e sem saber voar
Desprezando as asas que você me deu
Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares,
mas de bailarinos
e de você e eu.
Paralamas do Sucesso

Hoje acordei assim!

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Frase do dia

Detesto não ter nada para fazer. O que eu gosto mesmo é de ter muito para fazer e não fazer nada.

Supermercados

Se tem uma coisa que gosto de fazer como dona de casa é ir às compras no supermercado. Gosto de ver os novos produtos, aproveitar as amostras grátis, comparar preços, experimentar os biscoitos e bolos que nos oferecem, ver as datas de validade, ler os rótulos, cheirar quase todos os ítens das prateleiras de cremes e shampoos, apalpar as frutas e no fim... levar o básico que estava na lista porque sou muito poupada. Reparei num dia desses na nota fiscal, que estava escrito estre outras coisas, comércio varejista (acho que em Portugal é retalhista). Bom, isso eu já sabia, a questão é que não tinha refletido até então no real significado. Depois de alguma pesquisa percebi que tenho o direito de comprar, por exemplo, somente meio quilo de sabão em pó mesmo que para isso tenha que deixar o resto na caixa. O mesmo vale para o arroz, o feijão, a farinha e coisas desse tipo. Claro que não poderia levar meio potinho de iogurte ou meio sabonete (existem algumas regras). No caso dos iogurtes aqui no Brasil eles são vendidos em peças unidas e nos dizem que não é permitido tirar só um potinho, se quiser levar tem que levar todos unidos que é para não haver traumas de separação eu acho. Por causa disso já fiz confusão em um supermercado reivindicando os meus direitos. Outra armadilha que os supermercados nos fazem é vender uma caixa de hamburguer com 12 unidades e se você quiser levar o pacote do pão este vem com 8 unidades. Daí é preciso comprar outro pacote de pão por causa das 4 unidades, e mais outra caixa de hamburguer por causa dos 4 pães que sobram, e mais outro pacote de pães por causa das 8 unidades de hamburguer. Aí sim finalmente temos um empate (se é que não errei nas contas ou me chateei e fiz um hamburguer triplo).
Pois é, acho que estou mesmo a precisar de arranjar um emprego.

Só hoje

Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito
Nem que seja só pra te levar pra casa
Depois de um dia normal
Olhar teus olhos de promessas fáceis
Te beijar a boca de um jeito que te faça rir
Hoje eu preciso te abraçar
Sentir teu cheiro de roupa limpa
Pra esquecer os meus anseios e dormir em paz
Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria
Em estar vivo
Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar
Me dizendo que eu sou causador da tua insónia
Que eu faço tudo errado sempre, sempre
Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Só hoje

Jota Quest

Incline um pouco a cabeça para a esquerda


By Anabela

terça-feira, fevereiro 22, 2005

pois

Por acaso, nada acontece por acaso

Preciso de dormir para parar de sonhar

Nestes últimos tempos raramente tenho sonhado. Só mesmo de olhos abertos. O que, convenhamos, não tem a mesma graça. Mas nem sempre foi assim. Quando era mais novo sonhava imenso. Muito mesmo. Talvez porque tinha mais tempo, mais disponibilidade e menos preocupações. Não sei. O que sei é que era muito bom. Especialmente naquela altura do sono, entre as 8 horas e o meio-dia, em que já se está meio consciente e que se consegue controlar o sonho a nosso belo prazer. E sonhar, meio consciente, é do melhor que há. Muito melhor do que qualquer filme. E bem mais real e interessante. Nem que seja porque o actor principal, realizador e argumentista somos nós próprios, tal como num bom filme do woody Allen. Ainda por cima, desta forma, tem-se a possibilidade de sonhar com as coisas mais fantásticas e impossíveis que se possa imaginar. E sempre com a garantia de um final feliz. Para o nosso lado, claro. Pelo menos se conseguirmos levar o sonho até ao fim. O que muitas vezes, por causa da hora de almoço, se torna impossível. E acordar a meio de um sonho destes é do mais bárbaro que existe. Porque, por muito que se tente, não se consegue voltar a ele. É de ficar amuado para o resto do dia. De tão bom que era.

Ora bem, hoje em dia, por muitas tentativas que faça, já não consigo sonhar desta forma. O que é uma enorme frustração, ainda para mais quando nem cinema tenho por aqui. O que quer dizer que os meus níveis de ficção, imaginação e auto-estima andam muito por baixo. E para piorar as coisas, como não consigo sonhar, perdi a motivação para dormir. O que faz com que ande com umas olheiras de todo o tamanho, mal humorado e a bocejar todo o dia. O que é muito chato. Especialmente quando o director está a falar para nós de coisas importantes. Por isso, apesar de não saber a quem me devo dirigir, quero reivindicar aqui os meus sonhos de volta, assim como, as minhas dez horas de sono por dia. Para o meu bem. E do meu próximo.

Eternamente tu II

O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão
O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção
Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós
Meu amor, o tempo somos nós
(...)

Jorge Palma

Salvador Dali

Há pouco pensei nisto...

É nas pequenas coisas que o amor se concretiza.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Ressaca eleitoral

Apesar de estar a meio oceano de distância de Portugal, não pude deixar de viver as emoções eleitorais da noite passada. E, obviamente, fiquei contente pelos resultados das eleições. Essencialmente porque, como sempre defendi, penso terem sido a melhor solução para Portugal. Porém, não se pense, que estou, ou que fiquei, eufórico. Pelo contrário. A hora não é de festas. É hora de governar. Seriamente.

Não pretendo fazer nenhuma análise política. As que ontem ouvimos são mais que suficientes. Deixem-me apenas dizer três coisas. A primeira vai para Paulo Portas, que pela primeira vez, teve uma atitude política honesta. Subiu na minha consideração, que, diga-se, era quase nenhuma. A segunda, é constatar que Santana Lopes não tem emenda mesmo. Ele é assim mesmo. A gente já o conhece e já não espera muito mais dele. Por isso, nem levamos muito a mal que, aquela triste figura, ainda queira, depois de ter levado Portugal e o partido a uma situação lastimável, continuar a ser líder de um partido como PSD. Certamente que o PSD, e Portugal, merecem muito melhor, pois todos já perceberam que o lugar deste senhor não é na política, mas sim numa Quinta das Celebridades qualquer. A título permanente. Claro. A terceira e última coisa que quero dizer é sobre o Bloco de Esquerda. De facto, vejo com algum, para não dizer muito, desagrado a subida eleitoral do Bloco de Esquerda. Como já referi muitas vezes, para mim, o Bloco não passa de um embuste político. Assim, só posso ficar contente pelo próximo governo não depender deles para nada.

Apesar de não ter, infelizmente, podido votar, sei que com a vitória do PS, e do Eng. Sócrates, a minha responsabilidade também aumenta, na medida que sempre fui seu apoiante. Contudo, não se pense que silenciarei a minha crítica. Muito pelo contrário. Acima de tudo sou por Portugal e nunca prescindirei dos meus princípios, o que, em alguns pontos, colidirá com as políticas que se avizinham.

Ao que parece em Portugal, hoje, começou a chover. Não chovia há 4 meses. Um bom pronuncio, eu acho.

Acorda, Menina Linda

Acorda, menina linda
Vem oferecer
O teu sorriso ao dia
Que acabou de nascer
Anda ver que lindo presente
A aurora trouxe para te prendar
Uma coroa de brilhantes para iluminar
O teu cabelo revolto como o mar

Jorge Palma

E o tempo mudou mesmo. Agora, faça-se luz!

Citação

Tudo quanto aumenta a liberdade, aumenta a responsabilidade.

Victor Hugo

domingo, fevereiro 20, 2005

PS ganha eleições com Maioria absoluta

Os portugueses, nas urnas, assumiram a sua responsabilidade, e percebendo o que estava em causa, votaram, muito claramente, na mudança, na estabilidade, na credibilidade e na normalidade política, dando, assim, todas as condições ao Partido Socialista, e ao Eng. Sócrates, para formar um bom governo, estável, credível e competente. Agora a responsabilidade está toda nas mãos do PS e do Eng. Sócrates. Não há espaços para desculpas. Portugal não pode esperar. É hora de governar. E bem.

Mil folhas

Acabo de ver uma imagem de um bolo que adoro. O mil folhas. Tem massa folhada. Creme no meio. E um chocolate delicioso por cima. Estou cheio de saudades e de água na boca. E o pior é que aqui não tenho hipóteses nenhumas de comer um. Nem sequer qualquer coisa parecida. Por isso, e antes de começar a ficar deprimido, vou para a cozinha fazer um doce qualquer. Para remediar. Até porque estou farto de engolir saliva.

Tempo de mudança

sábado, fevereiro 19, 2005

Frase do dia

A prática leva à perfeição. Excepto na roleta russa. Claro.

A coisa mais estranha e absurda que escrevi. Em 5 minutos. Diga-se.

Estou sem assunto. Mas apetece-me escrever. Sem emendas. Sem correcções. Sem pensar. Apetece-me falar de alguém. Mas não posso. Apetece-me falar de mim. Mas não quero. Só me resta ir escrevendo. Começar por qualquer lado. Aguentem-se.

Gosto de pessoas com objectivos. Com capacidade de sofrimento. Perseverantes. Lutadoras. E no entanto, conheço tão poucas assim. Mas as que conheço fascinam-me. Prendem-me. Cativam-me. Uma em particular. Talvez por eu não ser assim. Talvez porque gostasse de ser assim. Não quer isso dizer que não goste de ser como sou. Gosto. Mas às vezes não chega. Parece-me faltar qualquer coisa. Que faça a diferença. A diferença entre o que faço e o que penso fazer. Entre o que sou e aquilo que podia ser. Possivelmente, se fosse aquilo que podia ser, pensaria da mesma forma. Nem daria conta da diferença. Porque nós nunca somos aquilo que podíamos ser. Há um conflito que se agudiza. Nunca estamos satisfeitos. Adaptados, talvez. Conformados. Sei lá. Parece que pertencemos a outro lado. A outras circunstâncias. Ou então não. Somos mesmo isto. Seres, por natureza, insatisfeitos. Inadaptados. Diferentes. Com características. Com gostos. Conscientes do nosso estado. Do nosso fim. E até, imagine-se, da nossa falta de jeito para escrever.

Reflexos do nosso mundo

Citação

Um boletim de voto tem mais força que um tiro de espingarda.
Abraham Lincoln

As eleições

Este é o último post político antes do dia das eleições, pois quero também fazer do dia de amanhã um dia de reflexão. Não quero fazer campanha. Todos sabem o que penso. Confesso, porém, que estou ansioso pelas eleições. Por mim bem podiam ser já hoje. As sondagens destes últimos dias parecem revelar duas coisas. Primeiro, a vitória do PS é indiscutível. Segundo, que a maioria absoluta, apesar de ser bastante provável, ainda não está garantida. Aliás, só estará garantida com todos os votos contados. Com os votos daqueles que acreditam num país melhor e mais justo. Com os votos daqueles que querem devolver Portugal à normalidade política. Com os votos daqueles que acreditam que a estabilidade política é uma alavanca essencial para se poder ter um bom governo.

Sei, contudo, que nem todos se enquadram nestes votos. Muitos votarão por outras convicções. Outros por fanatismo e seguidismo partidário. Outros por conveniência ou conivência. Outros por orgulho. Outros, até, por gosto. Como se fosse uma coisa sem importância. E isso deixa-me triste. Porque votar não pode ser uma questão de gosto e de orgulho. Porque as eleições não são um jogo de futebol. Porque os partidos não são clubes. Porque os votos não são golos. A democracia é muito mais do que isso. Tem de estar muito acima disso, pois o que está em jogo é, simplesmente, o futuro de Portugal. E quer queiramos quer não, isso está nas nossas mãos. De todos. Sem excepção.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

mais uma...

já diz aquele anúncio... "Eu sou capaz de ignorar e ficar indiferente perante a publicidade"

António Lobo Antunes. O próprio.

Nunca coleccionei nada, nunca juntei papéis, nunca guardei manuscritos: vivo do vento. Não tenho cartão multibanco, nem cartão dourado, nem cartão de visita: trago o dinheiro no bolso como os negociantes de gado e os intermediários de droga. Não me importa o que visto ou o que como, nunca bebi, não vou a jantares, e devo ser aborrecidíssimo porque não me aborreço. Em criança brincava quase sempre sozinho: continuo a brincar sozinho dentro da minha cabeça, assistindo às coisas que se fazem e desfazem continuamente nela. Não faço parte de nenhuma associação, nenhum movimento, nenhuma confraria, nenhum partido. Quase não falo e, em regra, quase não oiço. Gosto de algumas pessoas, de alguns lugares, de alguns livros. Não odeio ninguém, não invejo ninguém: não por ser bom rapaz mas por não ter tempo. Escrever é um acto que raramente associo ao prazer e que, no entanto, me leva a maior parte das horas: desconheço a razão de ser um homem de palavrinhas, colocando-as umas atrás das outras numa furiosa e mansa paciência obstinada. E não tenho mais nada a dizer a meu respeito.

Tudo o que ficou acima é verdade e no entanto não sou nada disto. O que serei então?

António Lobo Antunes, in Visão

Outras praias

by Elsa Ferreira (Ilha da Boavista / Cabo Verde)

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Conselho

Case com uma mulher bonita. Fica bem mais fácil livrar-se dela.

Diário de um professor VI

Anteontem, numa aula, um aluno chamou-me de maluco. Espontaneamente e, ao que me pareceu, sem me querer ofender. Contudo, e apesar de ter falado em crioulo, teve azar, pois ouvi e percebi exactamente o que disse. Como é óbvio, não tive outra alternativa senão a de colocar o aluno fora da sala de aula, com a respectiva falta disciplinar e participação ao director de turma. Inevitável. Hoje, num intervalo, apareceu-me a mãe do dito aluno para falar comigo. Depois de se apresentar, explicou que o seu filho lhe tinha contado o que se passou, e que, por isso, vinha pedir desculpa pelo seu comportamento. Apesar de o filho lhe ter dito que aquela palavra saiu sem ele querer, dizia-me que sentia-se envergonhada, e garantiu-me que o rapaz nunca mais iria ter uma atitude como aquela, pois tinha sido repreendido com uma “grande sova”. Repetiu-me isto três vezes. Como devem calcular, e apesar de compreender e aceitar as diferenças culturais, não pude deixar de ficar com a consciência um pouco pesada. Contudo, aqui, as regras são bem rígidas, e mesmo na própria escola, qualquer comportamento inadequado é punido muito severamente. Como castigo. Como exemplo. E essencialmente, como forma de preservar a autoridade da escola. Do professor. E o certo é que, quase sempre, a coisa funciona...

Eternamente tu

O meu tesouro és tu
Eternamente tu
Não há passos divergentes para quem se quer
Encontrar
Jorge Palma

Fazendo pouse ...

by Carla Merendeiro ( São Nicolau /Cabo Verde )

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

A Gente Se Acostuma

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não a tem, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e a dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceita ler todo dia de guerra, dos números da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar à luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber. Vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente se senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colassanti

e esta?

pelos vistos a convergência tende em criar divergências...

como tal, adoptou-se o sistema de fazer convergir divergências....

Diário de um professor V

Finalmente! Acabei agora de corrigir os testes. Todos. Foram quatro dias de sofrimento, com poucas horas dormidas e, pelo menos, uma caneta vermelha gasta. Uma grande seca, mesmo. Os resultados foram piores que os dos testes anteriores. Penso que isso se deve ao facto de o teste ter sido mais difícil que os anteriores e, também, pela manifesta falta de estudo dos alunos (talvez porque o teste coincidiu com a época de carnaval). De qualquer forma, num total de 177 alunos, houve 57% de positivas, 20% de notas acima dos 14 valores e 25% de notas abaixo dos 7 valores. Confesso, que este último valor preocupa-me um pouco, pois é sinal da perda de interesse de alguns alunos, em especial, daqueles que já se convenceram não irão ter aproveitamento positivo na disciplina de Matemática. E isso para um professor é muito complicado. Não só porque é péssimo para o funcionamento, e dinâmica, da aula, mas também porque nos provoca um sentimento de frustração em não ter conseguido, de facto, interessar e motivar todos os alunos para a aprendizagem da matemática.

O local de todos os encontros

by João Paradela ( Praça / São Nicolau / Cabo Verde)

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Constatações II

Estava eu a ouvir o Telejornal da Sic, quando, num meio de uma reportagem qualquer, oiço alguém a discursar num comício e a dizer qualquer coisa como isto:

Santana Lopes foi secretário de Estado, mas saiu a meio, foi presidente do Sporting, mas saiu a meio, foi presidente da Câmara de Lisboa e saiu a meio (...) e agora vai sair a meio do mandato de primeiro-ministro. Uma coisa é certa: quando Santana Lopes sai as coisas melhoram. Ele saiu da presidência do Sporting e até o Sporting foi campeão.

Querem mais motivos?

Pgajoso

Sabm aquls macaquinhos qu, dpois de rmovidos, custam a dscolar dos ddos? Acabi d livrar-m d um, mas rcuso-m a tocar na tcla ond ficou agarrado... in iluminado

Vamos a banhos?

Esta semana deixei morrer um dos muitos mitos que me inculcaram desde criança. Falo, neste caso, do mito, que muitos aceitam como verdade absoluta, de não se poder tomar banho, frio ou quente, depois das refeições, pois pode parar a digestão ou, como se diz, ter-se uma congestão. Confesso, que sempre fui muito cumpridor das 3 horas de digestão antes de tomar qualquer banho, mesmo quente. Por esse facto, a minha colega Helga, que vive comigo, chamou-me à razão e lá me explicou a digestão tim-tim por tim-tim.

Ora bem é verdade que, a paragem de digestão pode ocorrer após uma refeição copiosa ou com alimentos de difícil digestão, a quem desenvolve exercício físico intenso, ingere alimentos gelados ou toma banho de água fria. E ocorre porque como o nosso corpo tem prioridades, ou melhor, funções prioritárias, o sangue é redireccionado para os órgãos e funções onde está a ser mais preciso. Ou seja, quando acabamos de comer, e mesmo quando ainda estamos na santa refeição, o sangue é redireccionado para o aparelho digestivo, que é o sítio onde ele é mais preciso. Ora, se tomarmos banho em água fria, há um choque térmico com a nossa pele, e quando isso acontece, o sangue de imediato acorre à pele para moderar a temperatura e anular esse choque térmico, e nesse caso, pode dar-se a congestão (congestão= paragem da digestão) porque o sangue sumiu-se para outro órgão do corpo, para outra função.

Explicada a parte científica vamos ás conclusões. Primeiro, na teoria, não se deve tomar banho depois das refeições com água fria. Contudo, com água quente ou à temperatura ambiente não há risco nenhum (há especialistas que dizem que, mesmo com água fria, o risco é insignificante ou nulo). Segundo, essa história de se poder tomar banho meia hora depois das refeições porque a digestão ainda não começou é uma grande treta, visto a digestão começar logo imediatamente quando colocamos a comida na boca. Terceiro, votem PS, por Portugal. Ups.

Declaração

Este blogue, em concertação com o PSD e o CDS-PP, suspendeu por dois dias (até à hora do debate de hoje à noite) todos os Posts de teor político, em respeito pela morte da D. Lúcia, vidente de fátima.

P.s. Assim, para os que me acusam de só de falar de política, depois das minhas aulas, irei postar sobre as lendas que estão associadas ao tomar banho depois das refeições. Interessante, não?

V'ambora

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem, v'ambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas

Adriana Calcanhoto

Outros mercados

by Carla Merendeiro (Mercado / São Nicolau / Cabo Verde)

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Coisas de matemáticos

As pessoas podem ser dispostas em três grupos: as que sabem contar e as que não sabem.

Dia do amor e da amizade

Sei que em alguns países comemora-se hoje o dia dos namorados. Aqui no Brasil esse dia foi adiado para 12 de junho. Mas é uma data muito exclusivista visto que nem todos têm um par. Sendo assim, resolvi pesquisar e descobri que mesmo esses podem ficar um pouquinho mais consolados hoje porque é também o Dia Mundial do Amor, e o Dia da Amizade Luso-Afro- Carioca!!! Se nem todos têm um amigo Luso, ou Afro, ou Carioca, tenho a certeza de que todos têm um amor (nem que seja amor de mãe). Mas para os que mesmo assim não se sentem consolados, pensem que hoje não é um dia tão especial assim, é só uma segundafeirazinha, daquelas que a gente não costuma se importar tanto, quase insignificante.

Sendo assim, um feliz dia da amizade luso-afro-carioca para os meus amigos lusos-afros-cariocas (eu sei que não surte o mesmo efeito que um feliz dia dos namorados, mas...)

Curiosidade: No Brasil, o fato de a data ser comemorada em 12 de junho tem um significado muito menos heróico ou romântico do que o “Valentine’s Day" adotado na Europa e depois nos EUA. O costume surgiu em 1949, quando o publicitário João Dória trouxe a idéia do exterior e a apresentou aos comerciantes. Como junho é um mês de vendas baixas, eles decidiram comemorar a data nesse mês e ainda escolheram a véspera de Santo Antônio, o santo casamenteiro como o Dia dos Namorados.

Notícias que me fazem rir

1. A Câmara dos Deputados do Estado da Virgínia, nos Estados Unidos, aprovou uma Lei que proíbe a moda de se vestir calças com a cintura tão baixa que deixem as cuecas (masculinas ou femininas) à mostra. Os mais ousados que queiram continuar a mostrar as roupas interiores em público, por muito bonitas e originais que sejam, podem incorrer numa multa de cerca de 50 dólares, ou, se preferir, 38 euros. in Portugal Diário

2. O PSD e o CDS/PP cancelaram as suas iniciativas de campanha previstas para esta segunda e terça-feira devido à morte da irmã Lúcia, a vidente de Fátima.

[Adenda]: O bispo resignatário de Setúbal D. Manuel Martins, não esconde a indignação e considera um absurdo e «um oportunismo político» interromper a campanha eleitoral em homenagem à Irmã Lúcia. in TSF

Feliz dia dos namorados

Hoje é dia dos namorados. Infelizmente estou aqui só. O que é, diga-se, uma chatice. Ao menos não vou ter que me preocupar em comprar um presente. E olhem que isso para um homem é um problema. Ainda para mais, quando aqui, em Cabo Verde, não há flores, nem bombons... Acho que iria ter que ficar por um beijinho. Mas dado com muito carinho. Claro. Por outro lado, também não espero receber nenhum presente. O que é também, diga-se, uma chatice. A não ser que, algumas das minhas alunas, me façam alguma surpresa. Mais à tarde saberei. Mas desconfio que pelo menos a uma carta não me escapo. A ver vamos. Ou então não.

Só um cartinha

Dia que bô bá pa Cabo Verde bô perguntam
O quê cum cria dalá pa bô trazem

Oiá um pergunta que bô ta fazem
Bô crê sabê o quê cum crê pa bô trazem
Oiá um pergunta que bô ta fazem
Bô crê sabê o quê cum de nha terra

Trazem só um cartinha
Pa ca pesá na bô mala
Trazem só um cartinha
Ma dôs regrinha

Ma naquel cartinha trazem Morabeza
Naquel cartinha trazem um Serenata
Ma naquel cartinha trazem nha crêtcheu
Naquel cartinha trazem tude quel Mar Azul

Lura

E porque hoje é Segunda...

domingo, fevereiro 13, 2005

Não faças hoje o que podes fazer amanhã

Como já é habitual, aqui na vila, cortaram a electricidade da zona onde moro. Não seria nada de mais, se não fossem os 200 testes que tenho de corrigir para amanhã. Das duas uma. Ou a luz vem depressa e eu recomeço a correcção. Ou então, já tenho uma boa desculpa para amanhã dar aos alunos... Ainda para mais, hoje à noite há um concerto de Rabeca (música popular Cabo-verdiana) na praça. E como eu odeio escuro vem mesmo a propósito.

Frase do dia

Eu sempre quis ser alguém. Hoje arrependo-me de não ter sido mais específico. in Iluminado

Estive pensando...

Enquanto os telefones, antes pesados objetos pregados na perede, viraram um tabletinho de bolso, os tênis se tornaram naves espaciais e os carros não param de mudar, os cinzeiros de hall de elevador parecem ter parado no tempo, em algum momento da década de 40 do século passado. São dois tipos: aqueles quadrados baixos, com uma areiazinha nojenta dentro, e o cilíndrico, mais alto, com buracos redondos nas laterais. Mudam os elevadores, os prédios, cai o muro de Berlim, e eles permanecem lá, antigões, alheios às revoluções estéticas políticas e comportamentais, como vovôs que insistem em usar sempre a mesma roupa.
Falando em cinzeiros, lembrei-me das caixas de fósforos que parecem vindas de um vilarejo perdido no século 19. É como se todas as marcas tivessem feito um pacto com a antiguidade. Opa, todas não: tem um fósforo amarelo, que vem também numa caixa grande (bom para acender o forno), que é todo diferentão. Confesso que o vejo com certa desconfiança. Acho-o um traidor, rompendo com a tradição, despudoramente, com aquela amarelice desbragada e seus palitos de cabeça rosada.
Há objetos que mudam, mas não mudam. Quero dizer, a cara é outra, mas o funcionamento permanece idêntico. Durante quase todo o século 20, os refrigerantes vinham em garrafas de vidro, com tampinha de metal, como as de cerveja (não sei se por ciência ou misticismo, depois de abertas voltavam para a geladeira com uma colher no gargalo. Diziam que assim o gás não escapava). Então surgiram as garrafas plásticas com tampa de rosca. Anunciaram que seria uma revolução: o fim da Coca-Cola choca. Era mentira. O homem foi à Lua e inventou os submarinos nucleares, mas ainda não achou uma forma de manter o gás dentro do refrigerante.
Você pode alegar que os cientistas têm mais o que fazer além de se preocupar com nossos refrigerantes. Tá bom, faz sentido, mas quando vejo os objetos high-tech em que as escovas de dentes de tranformaram, ou a quantidade de tecnologia embutida em um barbeador, tenho minhas dúvidas. Já disse alguém por aí que "na natureza nada se perde nada se cria, tudo se transforma". Tudo, menos as caixas de fósforos, os cinzeiros de halll de elevador e o gás fugindo das garrafas, sabe-se lá porquê.
Adaptado do texto de Antonio Prata

World Press Photo of the Year 2004

sábado, fevereiro 12, 2005

Homem prevenido vale por dois

Como sabem os professores correm grandes riscos de contrair cancro na garganta devido ao esforço que fazem, diariamente, ao darem as suas aulas. Por isso mesmo, estou a elaborar um arquivo com todos os nomes dos alunos que vou tendo, de forma a precaver futuras indemnizações. Ah pois é.

Escrevi hoje de manhã

No metro

No metro o ar é mais pesado. Os olhares são baços. O escritor desce as escadas, segue as setas. Sente a respiração das pessoas que esperam. Sente os passos, as conversas, os silêncios. O som de chegada, as portas que abrem. O escritor entra e senta-se ao lado de uma mulher que escreve. Sem olhar para ele. O escritor espreita o caderno de capas pretas, pequeno e usado. Ela escreve sobre o sol. Fechado no metro, o ar putrefacto e a luz doentia, o escritor lê o sol da aldeia dos seus pais, e dos seus avós, antes deles. A mulher não sente o movimento do metro a avançar. Ferro. Escuridão. O cabelo negro, muito comprido, está apanhado mas caí-lhe sobre as costas numa tranquilidade de quem não está ali. Ali, ao lado do escritor, estão as paredes caiadas que guardam o sol durante o dia e ficam a ferver numa brancura totalitária. Os putos que ficam a jogar futebol e andar de pasteleira, depois de fazerem os trabalhos de casa, até à hora de jantar.

A mulher tem umas mãos bonitas, cuidadas. Quando pára a ler o que escreveu, a pensar, e roda a caneta azul na mão direita, bate a caneta contra o papel uma, duas, três vezes, dá para ver um grande calo de escrever no dedo. A única imperfeição nos dedos compridos, muito brancos. Na pela dela cheira-se ainda a aragem entre os ramos das oliveiras. Cheira-se ainda a aldeia dos bisavós, dos avós e dos país do escritor. E a mulher é um pedaço das suas memórias, arrancado sem avisar. É uma saudade com forma humana, com cabelo negro, com uma pele jovem. O movimento da caneta parou. Ela desviou os olhos do caderno e viu-o pela primeira vez. E os olhos dela eram o reflexo dos dele. Eram do mesmo castanho muito muito escuro, quase negro. Toda ela lhe pareceu apenas um olhar. Todas as pessoas e as conversas do metro lhe pareceram um olhar. O mundo condensou.

O metro parou e o olhar quebrou-se. O escritor levantou-se e perturbado, deixou a mulher a olhá-lo e o texto inacabado sobre o sol, as paredes caiadas e a aragem entre os ramos das oliveiras. Saiu e ela ficou sentada com o caderno no colo. O escritor sentiu o metro partir nas suas costas e foi como se tivesse deixado outra vez as tardes de jogos de futebol no meio da rua, que tinham que ser interrompidos quando um carro passava, os velhos venerandos que se juntavam a falar nos bancos da praça e os homens que bebiam copos cheios nos cafés com um ar que era vinho tinto e fumo de tabaco de enrolar. Subiu as escadas, seguiu as setas. E o sol filtrado da cidade bateu-lhe na cara.

Frase do dia

A maior e mais convincente prova de que existe vida inteligente em outros planetas é que até hoje nenhum extraterrestre quis aparecer por aqui.

Lavar a cara

Estou farto deste fundo azul. Por isso decidi mudar o aspecto do template das Coisas Breves. Mais para o branco. Acho. Espero não fazer nenhuma asneira irremediável. A ver vamos.

[Adenda]: Estive a tarde toda a tentar mudar o aspecto disto. A verdade é que não me familiarizei com nenhum tempate disponível. E não encontrei nada adequado e bonito. Acho que o Coisas Breves é mesmo assim. Feio todos os dias. Desculpem.

Música Vs Notícias

A maior parte dos meus amigos sabe que eu não percebo nada de música. Não sei os nomes das músicas, nem sequer reconhecer quem é o seu autor. Excepção feita ao Jorge Palma. Claro. O motivo de ser assim, tão inculto musicalmente, tem que ver com o facto de desde adolescente, e ainda sem ter leitor de CDs nem gira-discos, só ligar o rádio para ouvir as notícias e programas da TSF – Rádio Jornal. A verdade é que nunca tive a paranóia de ouvir música na rádio, nem a de andar de walkman, nem de estudar a ouvir música. Muito menos de ficar horas sentado a ver a MTV ou qualquer canal do género. Preferia as notícias, os debates políticos, as entrevistas ... Não se pense, porém, que não gosto de música. Pelo contrário. Há uns anos até tentei resolver esta minha falha. Comecei a ouvir música compulsivamente para recuperar o tempo perdido. Ainda consegui recuperar algumas coisas, especialmente musica portuguesa e brasileira, mas não consegui absorver tudo, muito menos grupos como o Linkin Park, Limp Bizkit, ou coisas do género.

Vem isto a propósito pelo facto de, mesmo a partir de Cabo Verde, ter redescoberto o meu velho prazer de adolescente. Ou seja, voltei a ouvir a TSF- Rádio Jornal, diariamente, graças à internet e à ADSL. Voltei ao meu velho vício. Lá vai a música ficar novamente para trás. Mas com o que por aí anda, também não vou perder nada de mais.

Sei bem

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser

Fernando Pessoa

Outras faces

By João Paradela ( São Nicolau / Cabo Verde )

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Narcisismos

Constato que as mulheres bonitas só gostam de homens feios. Deve ser por isso que não me ligam nenhuma. Só pode.

Outra vez política. As minhas desculpas.

Acreditem, tenho feito de tudo para não falar de política. Mas a verdade é que não consigo. Ou melhor, não me deixam.

Hoje, a 10 dias das eleições, um prestigiado semanário de referência, caracterizado pelo rigor, insenção e honestidade das sua notícias (estou a ironizar, ok?), chamou para primeira página um eventual envolvimento de José Sócrates num duvidoso negócio de licenciamento no ano de 2002. Apesar de ser uma notícia falsa, sem sustentação, o Jornal não hesitou em a publicar (e/ou fabricar), criando assim um facto político, com consequências eleitorais. Certamente que haverão desmentidos mas, tenho para mim, que o mal está feito.

Depois dos boatos sobre a eventual, e desmentida, homossexualidade de José Sócrates, agora, procura-se fazer insinuações, que não passam de calúnias, que visam a sua idoneidade e honestidade. Já para não falar dos cartazes do JSD e de muitas outras pequenas coisas, entre as quais os inúmeros e-mails difamatórios que recebo na minha caixa de correio do portugalmail, por supostos desiludidos do Partido Socialista. De facto, nunca se assistiu, em Portugal, a uma campanha tão suja como esta. Uma vergonha.

Não é difícil adivinhar que existe uma campanha organizada para descredibilizar e, se possível, evitar que José Sócrates devolva o país à normalidade que todos desejamos. Não tenho dúvidas nenhumas disso, muito menos da sua origem. Tenho para mim que só há uma forma de responder a esta gentinha. Votando. E bem.

[Adenda]:Depois da Procuradoria-Geral da República (PGR), a Polícia Judiciária (PJ) afirmou, esta sexta-feira, que não existem indícios que impliquem José Sócrates ou qualquer outro líder partidário como arguido no caso Freeport.

Nalgum lugar perdido

Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti

Mafalda Veiga

Outros shoppings

by Carla Merendeiro (Mercearia / São Nicolau / Cabo Verde)

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Não há direito

Soube hoje que o montante minímo para fazer levantamentos no multibanco vai passar de 5 para 10 Euros. Ou seja, é desta que vou deixar de poder fazer uso do cartão multibanco. Estou lixado.

Visitas

Durante este carnaval, tive o prazer de receber a visita de uns amigos portugueses que estão também a trabalhar em Cabo Verde, na cidade da Praia. Possivelmente, só quem está fora do país perceberá a alegria e o prazer que é em receber visitas de compatriotas. Oportunidade para mostrar a ilha, partilhar experiências e, inevitavelmente, falar do nosso Portugal, e em especial, no momento político. A este propósito, foi interessante reparar que todos tínhamos posições semelhantes. O que não deixa de ser revelador. No fundo o que nós queremos é que Portugal volte à normalidade e que recupere um minimo de credibilidade e estabilidade política. Já é mais do que altura. Portugal não pode esperar. Nem nós.

P.S. Gostaria de agradecer, a estes meus amigos, por terem-me permitido publicar algumas das fotos que tiraram por aqui, durante a sua visita. Obrigado. Vão dar um jeitão.

Constatação

Nos tempos de hoje, é necessário que se tenha muita imaginação para cometer um pecado realmente original.

Confessionário

Por crescer numa família protestante, nunca festejei o carnaval. Mesmo em criança. Até me recordo de sentir alguma inveja dos trajes carnavalescos dos meus colegas. Porém, a partir de certa idade, quando já estava firme nas minhas convicções, sentia um certo orgulho em não dar nenhuma importância ao carnaval em si. Ainda hoje, quando penso em carnaval só penso numa coisa. Nas férias. Claro.

Este ano, estando em Cabo Verde, vivi o dilema de participar ou não no carnaval local. O contexto é outro. A cultura também. É certo que carnaval é carnaval. A origem está lá. Ainda assim, este carnaval parece-me um pouco diferente dos outros. Nem que seja porque assume tradições diferentes das que estamos habituados a associar ao carnaval dos nossos dias. Não sei se isso é uma boa desculpa, mas adiante... O facto é que acabei por participar, ainda que de uma forma passiva. É certo que não me mascarei, nem sequer desfilei. Mas cantei, pulei, dancei e bati muitas palmas. Foram quatro dias de festa onde na verdade, juntamente com os meus amigos, me diverti muito.

Bem, mas arrumado que está o carnaval, voltemos à rotina. Às coisas sérias. E às coisas breves. Até já.

Vida

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Fernando Pessoa

O silêncio de um olhar

By João Paradela ( Mercado / São Nicolau)


quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Fim das férias

E cá estou eu no fim destas mini-férias. Foram mesmo muito muito curtas... mas deram para descansar, estava mesmo a precisar...

Mais um texto :

A sala de espera

Naquela manhã levantei-me anormalmente cedo. Como se o primeiro pecado de todas as coisas más fosse estragar-nos a rotina. Na rua o mundo existia. E nasceu em mim um pouco de respeito, misturado com desdém, pelas pessoas que passavam sem desespero no rosto.
Subi as escadas o mais lentamente possível. O corredor tinha um cheiro esquisito. Entrei na sala de espera e sentei-me. À minha volta outras tantas cadeiras ocupadas de paciência e resignação. Na parede quadros apropriados à ocasião. Abstracções de sangue e cabeças decepadas. A sala fria a inundar os olhos de quem esperava. Uma mulher gorda sentada à minha frente falava continuamente. Parecia um gigante de pedra, uma anciã de sabedoria. Uma rapariga, muito magra, estava como eu afundada na cadeira com uma expressão de silêncio negro, absorta da televisão. Havia uma mulher com o cabelo pintado de loiro que falava com uma conhecida sobre as dores do marido, sobre os problemas da sogra, fazia um inventário de todas as doenças que os filhos pequenos já tinham tido. Um homem apressado diz que vai lá fora fumar um cigarro. Sai uma criança a chorar da sala de recolhas. Todos, ali sentados, esperávamos.

Fechei os olhos ao caos psicológico à minha volta e pensei. Pensei onde gostava de estar naquele momento. Num café, sentada junto à janela, a beber um chocolate quente. A escrever num pequeno bloco, entre golos sôfregos, sobre as pessoas que passam. Ou bastava estar em qualquer sitio do mundo em que não sentisse aquele terror mal contido de que somos obrigados a abdicar quando crescemos. O terror e o medo que tremiam nas lágrimas dos nossos olhos quando éramos apenas crianças. E tínhamos a paz garantida de sermos apenas crianças. Chamaram o nome de um homem que não entrou. Voltaram a chamar. Uma mulher rígida no seu uniforme branco veio à sala perguntar pelo homem. Ninguém olhou sequer para ela. E eu, tímida, acho que foi lá fora fumar um cigarro. Todos suspenderam as suas conversas para olhar para mim. Um homem mais velho foi chamar o homem dissidente. A velha gorda olhava para mim, a loira oxigenada olhava para mim. Como se eu fosse uma descarada que não aproveitava a minha espera para desfazer o rosário de queixas e doenças. Como se fosse um elemento intruso que apenas observava. O homem chegou e entrou com a enfermeira impaciente. Voltaram as conversas, acto contínuo, mas desta vez a recriminá-lo. A sala de espera. A televisão ao canto. Os quadros mórbidos. As paredes agressivamente brancas. Todos esperávamos. Todos sempre esperamos alguma coisa.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Os menores contos

Isso é que é ser uma pessoa que diz muito em poucas palavras. A argentina Ana Maria Chua escreveu o menor conto: “FUJAMOS! OS CAÇADORES DE LETRAS ESTÃO AQ...” O anterior era de Augusto Monterosso, nascido em Honduras: “QUANDO DESPERTOU, O DINOSSAURO AINDA ESTAVA ALI”.

Férias carnavalescas

Só passei aqui para matar as saudades, pois por questões logísticas, e outras, tenho estado impossibilitado de escrever. Digamos que se tratam de umas férias carnavalescas. Uma pausa pedagógica. Mas amanhã já estarei de volta. Ou então não.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Sem máscaras!

By Carla Merendeiro (Carnaval / São Nicolau)

domingo, fevereiro 06, 2005

A chuva

Na cidade onde moro há um ano é uma região serrana do Rio de Janeiro onde chove bastante. É um local com muito verde e com temperatura média de 16º a 25º. Não é muito típico para um país tropical, mas como disse, é uma serra. No inverno fica um pouco mais frio e no verão fica bastante agradável (isso para quem não é fã daquele calor húmido e sufocante de 40º do Rio de Janeiro). A questão é que tem chovido todos os dias desde janeiro (no resto do ano também chove, mas temos dias de trégua). Eu disse, todos os dias. Tá bem, há alguns dias em que só chove de noite, mas nem que seja só um pouquinho, chove. É algo que já me faz confusão. Acordo e vejo, chuva grossa, chuva fininha, chuva de vento, chuva de verão, chuva molha parvos, chuva de neblina, às vezes a chuva parece vir do chão também já que as ruas ficam cheias de poças e quando vem água de cima respinga na de baixo ... e a roupa não seca no estendal, os cães ficam com o pelo sempre molhado, as plantas, em especial as ervas daninhas, crescem em ritmo acelerado, o limo toma conta do quintal e até as paredes vão ganhando uma cor verde. O bom é que podemos economizar nos cremes hidratantes já que é muito difícil a pele ficar seca com o ar tão húmido. Daí, quando assisto o telejornal de Portugal (que aqui em casa é imprescindível) bem no finalzinho, vejo o mapa meteorológico e as previsões de sol e tempo seco, confesso que apesar das dificuldades que isso possa trazer para a agro-pecuária, sinto uma pontinha de inveja. O clima anda mesmo desequilibrado, e com isso nós também vamos para o mesmo caminho do desequilíbrio.

sábado, fevereiro 05, 2005

A folia do carnaval de São Nicolau

O carnaval está a chegar a São Nicolau. Melhor, o carnaval já chegou. De facto, desde há um mês que a Vila só pensa e vive para o carnaval, que é a festa mais querida e esperada do ano. Existem dois grupos de carnaval principais. Rivais, claro. O copa e a Estrela azul. Toda a população se divide por estes dois grupos alimentando uma rivalidade e uma competição, só comparável aos fanatismos futebolísticos. Há semanas que os grupos andam a preparar os desfiles. Desde músicas, roupas, andores, festas, e.t.c. Todos os dias os grupos têm ensaiado as músicas para o desfile. O que acaba por ser um óptimo divertimento diário. Aliás as músicas são a única coisa que é do conhecimento público. Tudo o resto é secreto. Os andores são feitos em locais completamente cobertos e ninguém os pode ver antes do dia do desfile. Da mesma forma, as roupas do desfile são desconhecidas das próprias pessoas que as vão usar, chegando-se ao ponto de as experimentarem de olhos vendados. Por isso tudo, vai-se alimentando um clima de boatos, sobre as cores, sobre quem está mais bonito ou não, e.t.c. Aliás, agora, esse é o único tema de conversa e discussão por aqui. Não se pense, porém, que este é um carnaval igual a tantos outros. Não é. Este é o carnaval mais tradicional de Cabo Verde, onde as tradições ainda prevalecem e resistem, em relação às máscaras, ás bombinhas, aos balões de água e tantas outras coisas que por aí há.

O carnaval das crianças

Carnaval da EBI / Polivalente / São Nicolau / Cabo Verde

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Carta de amor de uma aluna II

aqui publiquei uma carta de amor que recebi de uma aluna. Depois dessa carta tenho recebido muitas outras. Ao ritmo de uma por cada quinze dias. Sempre da mesma aluna, que, por acaso, já deixou de ser. Tenho sido indiferente a tudo isto e já transmiti à colega, que serve de correio, para dizer à aluna em questão que pare de mandar cartas, porque, além de isso já me andar a incomodar, eu nunca irei responder ou dar importância. Numa espécie de resposta a este meu pedido, recebi mais uma carta esta semana, a qual reproduzo aqui, palavra por palavra:

“ João Narciso em primeiro de tudo desejo-te um bom carnaval 2005. João eu já te escrevi muitas cartas, e tu já deves estar farto delas, mas eu só vou deixar de te escrever quando tu mandares-me um foto seu. Eu prometo que não te vou escrever mais, mas se tu não me mandares até dia 11 deste mês, eu não vou parar e se tu não me mandares é porque gostas das minhas cartas. Eu desejaria de ter mais do que um foto seu mas isto é impossível porque tu nunca irias querer nada comigo, por isso peço-te um foto como um amiga. Está muito difícil te esquecer tirar do meu coração, os meus olhos dá para ver. Para ti um beijo bem grande.”

E esta hein?

Evadido

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

Há dias assim!

by João Paradela

Quem ganhou o debate?

Sinceramente, não sei dizer, em consciência, quem venceu. Tudo apontava para que que Santana ganhasse de uma forma clara. No entanto, não foi isso que me pareceu ter acontecido. Quanto ao estilo, Santana esteve igual a si mesmo, ou seja bem, e Sócrates esteve melhor do que eu esperava, ou seja, mais ou menos. Assim, neste aspecto Santana teve vantagem. Aliás, como seria de esperar, pois a conversa é, porventura, o seu único ponto forte. Quanto ao conteúdo, penso que Sócrates ganhou claramente. Mesmo assim Santana lá se aguentou sem comprometer. Ou seja, em resumo, não houve um vencedor claro. Quase dizia que foi um empate... Mas, depois de ouvir que, dos comentadores de serviço esta noite, o único a achar que o actual líder do PSD ganhou, ainda que por pouco, foi o Luís Delgado, o Santanete mais cego que conheço, só posso concluir que o Sócrates venceu. E por muitos.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Debate: Análise das prestações


Análise da prestação de Santana Lopes

- A frase: “Eu tenho um sonho para Portugal e estou a concretizá-lo”.
- Ponto forte: Mais natural a falar.
- Ponto fraco: Caíu facilmente no Populismo e, além disso, não fez esquecer que foi demitido de primeiro ministro por falta de credibilidade, competência e não sei mais o quê.
- A proposta: Acabar com a pobreza na terceira idade com estágios profissionalizantes.
- A dúvida: Supondo, com vista a um absurdo, que o PSD ganhava as eleições. Ora, se isto é praticamente impossível, ainda menos provável é que o PSD e o CDS consigam, mesmo juntos, maioria parlamentar. Desta forma, a minha dúvida é a seguinte: Com quem o PSD e O CDS se coligariam para conseguirem uma estabilidade governativa? Com o Bloco ou com o PCP?

Análise da prestação de José Sócrates

- A frase: Não peçam a um socialista para virar a cara para o lado quando existe pobreza".
- Ponto forte: A racionalidade do discurso.
- Ponto fraco: O estilo plástico; Discurso pouco fluente.
- A proposta: Atribuição de uma prestação complementar às pensões dos idosos com rendimento inferior a 300 euros mensais.
- A dúvida: Se o PS vai ganhar as eleições com maioria absoluta ou não?

Ainda sobre políticos

Acho que é um fenômeno mundial. Por que será que os políticos são tão feios? Ou melhor, por que será que os bonitos não conseguem se destacar? Ou quando aparece assim algum um pouco mais jeitoso (como no caso do presidente da Ucrânia) tratam logo de contornar essa situação nem que seja à base de toxinas! Assim fica difícil assistir aos debates. São políticos feios, com propostas feias, usando muitas vezes palavras feias, e quando eleitos então... aí é que a coisa fica feia, mas é para o nosso lado. Peço desculpas pelo pessimismo, mas diante desse quadro político mundial atual, não me restam muitos argumentos.

Constatação

As estatísticas demonstram: existe um tipo de mulher que vive mais que o marido. A viúva.

se vos apetecer ler um texto assim para o longo

Nada para dizer

A noite é uma escuridão que envolve a casa. O silêncio é um cobertor pesado, sufocante. Dou voltas debaixo dos lençóis, sem adormecer, sem abrir os olhos. Sento-me à ponta da cama, percorro o chão com os pés mas não consigo encontrar os chinelos. Levanto-me e saio do quarto. Estremeço ao sentir o frio do chão do corredor nos pés descalços. Entro na cozinha. Todos os sons são aumentados ao expoente de uma coisa proibida. Mas ninguém dorme. Porque não há mais ninguém na casa. Encontro um saco de café caído atrás da esparguete, da massa para lasanha, da massa chinesa, no armário. Não procuro o prazo de validade porque não quero saber. Faço o café, forte, e fico na cozinha a beber chávena atrás de chávena. As horas passam. A noite morre. A luz do sol começa a entrar pelas frinchas das janelas, começa a dourar a vida da casa. Deixo o cheiro a café na cozinha, a cafeteira e a chávena abandonadas em cima da mesa, e vou-me vestir.

Meto-me no carro. O volante ainda está tão frio a esta hora. O carro é como um velho cavalo adormecido, queixa-se e as suas entranhas remoem o gelo da noite que passou. Eu, afogada no meu gorro, no meu cachecol bem enrolado à volta do pescoço, obrigo-o a acordar e a andar. Há pessoas pelas ruas, acabaram de acordar ou não se chegaram a deitar. Na minha terra não encontras ninguém antes das sete da manhã nem depois da uma da manhã. É uma terra vazia. Mas é para lá que as placas da auto-estrada me guiam. Estou cada vez mais perto, tantos anos depois. A cada ultrapassagem, a cada quilómetro que escorre, estou mais perto.

Chego e não tenho coragem de parar. Dou voltas pela cidade, como se reconhecesse as ruas. Como se fosse um cego a percorre-las, a senti-las. E são memórias que me invadem, que me parecem chegar através de um espelho estilhaçado. Entro na minha rua. A minha casa. A rua que já não é minha e a casa que já não é minha. Mas num momento, não sei quem sou, não sei se sou outra vez uma criança a andar de bicicleta. Paro na tua rua, em frente à tua casa. Fico à espera que apareças para almoçar. Quando chegas saio do carro e olho-te nos olhos. Mas não te reconheço. Tanto tempo para perceber que afinal o reencontro não vai ser seguido de muitas noites em claro a contar as nossas histórias à lareira. Porque seriam precisas muitas noites para te voltar a conhecer, para me conheceres. Mas todas as histórias que aconteceram a esta pessoa que está à minha frente, não são as histórias que aquele menino teria para contar. Olho-te, sinto-te olhar-me. Não digo nada e volto a entrar no carro. Saio de uma cidade estranha. Não disse nada porque percebi que afinal não tinha nada para te dizer. Os anos são irreparáveis.

Hoje é dia de tira teimas: Desilusão Vs Esperança


quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Frase do dia

Penso, logo hesito.

ufa

Parecendo que não, um estudante sofre... segunda tive teste de ingles, terça de matemática e hoje de português. Desde sábado que foi uma espécie de maratona de estudo e noites mal dormidas. Mas há coisas muito boas para compensar.

Hoje fui a uma associação, na minha rua, que ajuda crianças com famílias problemáticas. Já lá tinha ido oferecer-me como voluntária e fui uma tarde ajudá-los com os trabalhos de casa, brincar com eles. Isto há 15 dias, porque na ultima quarta feira não pude. Hoje quando cheguei lá eles ainda sabiam o meu nome! São aquele tipo de crianças das quais eu tinha medo quando era criança. Mas apesar de todos os problemas que têm em casa são inteligentes, aplicados, carinhosos...

A sério, eu tomei a decisão de fazer voluntariado porque sentia que era uma sortuda, que tinha mesmo muitas coisas boas na vida. Queria poder ajudar alguém, fazer alguma diferença. Mas isto é só mais uma coisa fantástica a juntar ao que já tenho. Porque aqueles putos dão me muito e ensinam-me muita coisa.

Humor (?) politicamente incorrecto

Soube hoje que o Papa João Paulo II foi hospitalizado de urgência pelo facto de o seu estado de saúde se ter agravado. Talvez por culpa da minha mente pecaminosa não consigo perceber se isto é uma boa notícia, por ser sinal que afinal o Papa ainda está vivo, ou se é uma má notícia por ser sinal que afinal o Papa ainda está vivo. É caso para dizer, venha o diabo e escolha. Desculpem. A piada. Ou a falta dela.

Tempo de Antena II

Através da RTP África assisti à entrevista de José Sócrates à Judite de Sousa. De uma forma geral, pareceu-me que José Sócrates esteve bem. Demonstrou confiança e segurança. Apesar do pouco tempo de entrevista, concretizou algumas ideias interessantes, nomeadamente no plano tecnológico e na questão do emprego. Mas o destaque da entrevista vai, sem dúvida nenhuma, para a reacção aos boatos e calúnias que por aí circulam a seu respeito. Afirmou que são falsos e mentirosos. Além disso, não se deixou intimidar e mostrou que Santana Lopes, com uma actuação cada vez mais deplorável, é o principal promotor de uma das “maiores indignidades vividas numa campanha política em Portugal". E ... faltam 18 dias. Ainda. Digo eu.

[Adenda]: "Santana conseguiu o que queria, que a insinuação e a calúnia se propagassem, fazendo-o de forma pretensamente ingénua lançando uma falsa questão. Agora vem exigir um pedido de desculpas ao PS porque não fez insinuações; lata e cobardia em demasia e comportamento indigno de um candidato a primeiro-ministro de um país civilizado. Que mais tarde ou mais cedo Santana Lopes se iria socorrer de tudo o que pode para sobreviver já era de esperar, mas vir armado em "p... ofendida" é que já é demais! “ in Jumento

Ai Portugal, Portugal...

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Jorge Palma

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In Afixe

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Frase do dia

Bigamia não dá certo porque se fica com duas sogras.

MIAU!!!

Por ter dois cães, costumo ir a "pet shop" para comprar ração e outras coisas próprias e fúteis de quem gosta e tem animais. Dia desses reparei numa prateleira que não costumo reparar, a de produtos para gatos. Notei que existem rações de vários sabores como: carne bovina, frango, vegetais (sim, há gatos vegetarianos), peixe, fígado, ovelha... Mas para meu espanto, contrariando toda a tradição felina, não havia sabor passarinho ou rato. Que grande desilusão deve ser para os bichanos. ATENÇÃO futuros empreendedores do ramo alimentício! Talvez seja esse um mercado ainda não explorado pela indústria pet (e nem pelo mercado de controle de pragas). Alguém se arrisca?

Desafio Matemático

Que dia seria ontem se Quarta-feira fosse 5 dias antes do dia de amanhã?

Outras estatísticas

No outro dia, numa das aulas sobre estatística, resolvi fazer um exercício tipo, muito comum, para praticar a elaboração de uma tabela de frequências. O exercício consistia em contar o número de alunos consoante o número de irmãos que têm. Em Portugal, recordo-me que, no máximo, tinha um ou dois alunos com 4 irmãos. Pois bem, para perceberem que a realidade em Cabo Verde é bastante diferente, digo-vos que não tive espaço suficiente no quadro para fazer a tabela de frequências, pois havia alunos com 19 irmãos. Numa das turmas, a média rondava os 6,5 irmãos por aluno. Aliás, em 150 alunos, só encontrei 5 filhos únicos. Houve até uma aluna que não soube dizer exactamente quantos irmãos tinha. Ela bem que tentou contar pelos dedos, mas perdeu-se com a falta de tanto dedo para tanto irmão. Por fim, lá acabou por dizer que seriam, 19 ou 20. Parece-me, no entanto, que a realidade está a mudar. Não só pelo uso, mais ou menos generalizado, de contraceptivos mas, essencialmente, pela chegada da televisão, e em especial das novelas e do futebol. É caso para dizer que há males que vêm por bem. Ou não. Ou não.

Ser eterno

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Cecília Meireles

O Grito. Do tom laranja. Claro.

Edvard Munch